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O Cão-Tinhoso tinha a pele velha, cheia de pelos brancos, cicatrizes e muitas feridas, e em muitos sítios não tinham pelos nenhuns, nem brancos, nem preto e a pele era preta e cheia de rugas como a pele de um gala-gala. Ninguém gostava de lhe passar a mão pelas costas como aos outros cães.A Isaura a única que gostava do Cão-Tinhoso e passava o tempo todo com ele, a dar-lhe o lanche dela para ela comer e a fazer-lhe festinhas, mas a Isaura era maluquinha, todos sabiam disso.
A Senhora Professora já tinha dito que ela não regulava lá muito bem e que o pai havia de tirar da escola pelo Natal.
A Isaura não brincava com as outras meninas e era mais velha da segunda classe. A senhora Professora zangava-se por ela não saber nada e dar erros na cópia, e dizia-lhe que só não lhe dava reguadas porque sabia que ela não tinha tudo lá dentro da cabeça.
Quando ia para o estrado ler a lição, não se ouvia nada e a gente dizia: “Não se ouve nada, não se ouve nada”, e a Senhora Professora dizia que os meninos da quarta classe não tinham nada que ouvir. Então os meninos da segunda classe começavam a dizer: “Não se ouve nada, não se ouve nada” A Senhora Professora zangava-se e fazia uma bronca dos diabos. Por isso, no intervalo, as outras meninas faziam uma roda com a Isaura no meio e punham-se a dançar e a cantar: “Isaura-Cão-Tinhoso, Cão-Tinhoso, Cão-Tinhoso, Tinhoso, Isaura-Cão-Tinhoso, Cão-Tinhoso, Tinhoso”. A Isaura parecia que não ouvia e ficava com aquela cara de parva, a olhar para todos os lados à procura de não sei quê, como dizia a Senhora Professora.
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Luís Bernardo Honwana
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